18.1.11

Música influencia o ritmo dos exercícios

Dica para os atletas de plantão

Ouvir música durante a atividade física motiva e pode fazer você ir mais longe

A batida da canção pode acelerar ou diminuir o rendimento. Maratonas nos EUA consideram tocadores de música "dopping"

Músicas podem dar mais ânimo na hora dos exercícios, principalmente porque mexem com emoções. Como não se motivar ao som de Eye of the Tiger, tema do filme Rocky, o Lutador, lembrando da cena do ator Sylvester Stallone correndo pelas ruas da Filadélfia. Ou ainda como não se animar com a batida do hit Telephone, de Lady Gaga?

“Ao realizar exercícios ouvindo música sofremos alguns processos psicofisiológicos. Essas alterações são perceptíveis na frequência cardíaca, na motivação e no rendimento”, diz o professor de educação física Erivaldo Hildefonso Moreira, diretor técnico da Run For Win Assessoria Esportiva, de São Paulo.

Não é difícil perceber o quanto a música está associada à atividade física. Ao entrar em uma academia, clube ou outro espaço em que as pessoas estejam se exercitando nota-se a utilização dos aparelhos sonoros para estabelecer o ritmo do movimento, como entretenimento ou motivação.

O problema é que na sala de musculação de algumas academias compartilha-se a música em volume alto e nem todos apreciam o mesmo estilo. “Neste caso, o som pode se tornar desagradável, atrapalhando o desempenho da pessoa”, diz Erivaldo.

“Tanto na corrida de rua, quanto na academia, me animo e acelero os movimentos com uma música mais alegre”, afirma a estatística Jackeline Gense, de São Paulo. Quando está correndo e alguma música lenta "surge" em seu MP3, Jackeline não hesita em trocar a faixa. E quando precisa largar com motivação total, tem sua preferida: “É Dancing With Myself, do Billy Idol. Saio correndo forte e ‘troco’ o ‘dancing’ (dançar em inglês) por ‘running’ (correr em inglês)”, brinca.

Para os exercícios localizados, Jackeline também conta com o apoio sonoro. “Se não tiver música, a atividade torna-se muito monótona e não passo dos cinco minutos”.

Concentração

Em esportes coletivos — como basquete, vôlei ou futebol — os movimentos e gestos técnicos não acontecem de maneira repetitiva e são realizados de acordo com alterações no ambiente. Nesses casos, a música não favorece o desempenho. Mas as canções podem ajudar na motivação quando ouvidas antes.

Já em atividades como corrida, caminhada, musculação e ginástica localizada, que possuem a repetição mecânica como elemento principal, o som pode ser uma grande companhia. Uma das vantagens é que a atenção do individuo está focada em suas próprias sensações, driblando o cansaço e a dor. A técnica é conhecida pelos psicólogos como dissociação. “A música entra como um elemento capaz de direcionar a atenção a algo mais prazeroso”, argumenta o professor da Run For Win.

Apaixonado por ultramaratonas, o médico Gentil Jorge Alves Junior, de Ribeirão Preto, faz treinos de quatro a oito horas de duração e provas que podem chegar a dois dias.

“As músicas se transformam em aliadas para combater o tédio e aliviar o foco das dores em alguns momentos. As canções que têm maior apelo emocional funcionam como um catalisador das reservas de energia e me ajudam a melhorar a concentração e o desempenho”, diz. Ele conta que tem como estilo preferido o rock/pop, mas já correu ouvindo até sertanejo.

Certa vez, em uma maratona de 100 quilômetros, Gentil sentiu as energias se esgotarem no quilômetro 80. “Meu iPod havia deixado de funcionar. Por sorte, bem ali, voltou a pegar, tocando Wildest Dreams, da banda finlandesa Brother Firetribe, que eu gosto muito. Foi como uma descarga elétrica”, lembra. O contrário também já ocorreu. “Estava em uma prova de 10 quilômetros, mantendo ritmo abaixo de quatro minutos por quilômetro, ouvindo musica eletrônica. De repente tocou Marisa Monte. Foi como se tivessem puxado meu freio de mão. A performance caiu na hora”.

Aumente o som

Um estudo publicado no periódico Journal of Sport & Exercise Psycology, em 2009, demonstrou que a música certa pode fazer você correr mais e melhor. “O tempo passa mais rápido, você ganha ritmo, diminui sua percepção de cansaço e melhora o humor”, descreveu o pesquisador Costas Karageorghis. O desempenho dos indivíduos que foram avaliados na pesquisa aumentava quando o som obedecia a certas características, como batidas mais intensas e cadenciadas.

O ultramaratonista Jorge Cerqueira, militar da Força Aérea do Rio de Janeiro, tem mais 100 canções nos estilos dance, psy e trance em seu mp4.

“Arrumo as músicas na sequência em que quero que toquem, para não atrapalhar os treinos, que são longos e em ritmo forte”, diz. Ele conta que certa vez, quando estava quase desanimando em um treino, a salvação veio na batida de Darude, do Sandstorm.

A música é tão poderosa que alguns organizadores de provas a consideram uma espécie de “dopping”. A USA Track & Field, federação de atletismo americana, por exemplo, proíbe o uso de tocadores de música portáteis em suas corridas oficiais. A regra foi criada com o objetivo de garantir a segurança do evento e evitar que os corredores ganhem vantagem competitiva.

Para melhor ou pior

O auxiliar de dentista Majo Yslei Souza, de São Paulo, encontrou motivação e desânimo em uma mesma sessão de corrida com música. “Estava há sete quilômetros da minha casa e um pouco desanimado. Fui mudando as músicas no mp3 até que chegou Elevation, do U2. Naquele momento me empolguei e pensei até em aumentar o percurso. O problema foi que, antes mesmo de terminar a canção, acabou a bateria do aparelho. Desanimei totalmente e peguei um ônibus de volta para casa”, conta.

Quando você conhece bem seu corpo e sabe dosar a intensidade de exercícios, programar uma playlist com músicas energéticas pode ser bastante benéfico para dar um impulso no treino, sem o risco de se machucar. “Já iniciantes devem ter cuidado. Se por um lado as canções são motivantes, por outro existe o perigo de se entusiasmar demais e passar dos limites”, alerta o professor Erivaldo.

Como as músicas também levam a diferentes estados afetivos, as mais lentas podem provocar rendimento negativo. Foi o que aconteceu com o projetista de instalações elétricas André Luiz Panetto, de São Paulo.

“Não consegui montar a tempo uma playlist para uma prova de 10 quilômetros e corri ouvindo todas as músicas que estavam no meu celular, em modo aleatório. Em determinado momento tocou Easy, do Faith no More. Adoro a música, mas ao ouvi-la naquela hora meu ritmo caiu bastante. Sem perceber estava quase andando”.


Fonte: iG Saúde